Há muito tempo se sabe que a literatura de Jelalludin Rumi (Pérsia
1207/1273) se constitui num dos mais importantes textos da tradição
muçulmana. Mas, apenas recentemente, o mundo ocidental veio a reconhecer
sua poesia como tão importante e inspiradora quanto a poesia de
Dante ou Shakespeare. Celebrado como o maior poeta místico de toda
a tradição persa e árabe, Rumi passou a pertencer à seleta galeria
daqueles que foram capazes de, simultaneamente, penetrar as esferas
do divino e o panteão da criação poética.
Estudando seus textos e conceitos filosóficos durante dois anos,
observando sua repercussão nas explorações de movimento e associando-os
a vivências anteriores dos bailarinos, comecei a construir, com
a Companhia, um trabalho em torno da memória física e emocional
de momentos singulares, onde a força da vida se manifesta de forma
especial e inequívoca, a ponto de ter sua "emergência" impressa
no corpo.
A estrutura do trabalho foi concebida em "quadros/versos" de imagens
independentes, com uma atmosfera comum que lhes confere uma espécie
de unidade num plano mais abstrato. Através disso, procurei transmitir
a idéia de mosaico e espelhar cênicamente a estrutura de um ghazal,
palavra que identifica a forma tradicional da poesia lírica persa
do século XIII.
Busquei também manter uma fidelidade ao espírito dos poemas de
Rumi e, embora sem deixar de observar as gigantescas distâncias
geográficas, lingüísticas e culturais, me esforcei em absorver o
seu mundo e conservar seu sistema simbólico original vivo, atual,
próximo e direto. Terminantemente me recusei a ser enredada por
qualquer fixação etnocêntrica, que pudesse me impedir de abraçar
completamente uma obra literária apenas porque proveniente de outra
civilização e outro tempo.
O processo de criação deste trabalho foi inovador para a nossa
Companhia. Se, por um lado, continuamos com os ensaios tradicionais,
por outro, nosso lugar de encontro ampliou-se do estúdio para englobar
também o espaço virtual das telas de computadores, através do uso
de Quick -Cam, chats, e-mails e outros recursos tecnológicos.
Pressentindo que a tecnologia poderia servir como suporte para
uma visão poética do corpo e interessada em explorar mais este novo
espaço de reflexão, colaboração e comunicação, resolvi aproveitar
uma Residência em Nova York ( junto ao Ballet Hispânico of New York)
para renovar meu próprio processo criativo. Assim, coloquei a idéia
de uma colaboração internacional na Internet, estabeleci uma extensa
troca de emails com os bailarinos e equipe de criação, observei
ensaios via Quick-Cam e enviei seqüências inteiras de movimento
via Internet. Para mim e para os bailarinos da Companhia, este tem
sido um período de expansão dos limites físicos do corpo e do espaço.
A experiência vem se provando estimulante e a colaboração internacional
inclui desde a simples troca de idéias e discussões sobre aspectos
do trabalho, como poemas, compartilhamento de experiências pessoais
e até algumas seqüências de movimento, gentilmente oferecidas por
distantes colaboradores.
Com a força da tecnologia entrando nas vidas e nas artes em todo
o mundo, esta experiência, somando-se a outras tentativas anteriores
de exploração de diversas mídias ( Divina Comédia, 91/ S.Thala,
93/ Fundo Infinito,96) aponta novas perspectivas em nosso trabalho.
Penso em GHAZAL como uma celebração da vida, da poesia e da dança,
mas também como uma celebração das possibilidades de interação artística
do mundo contemporâneo.
REGINA MIRANDA